Sem açúcar

Sem açúcar

O café esfriava enquanto você falava
palavras bem passadas, sem açúcar,
essas que ocupam a boca
mas não pedem o corpo.

Observei o relógio fingir paciência.
Ele sempre finge.
Assim como quem ouve sem escutar,
assim como quem fica sem estar.

Havia um gesto mínimo
um olhar que já arrumava a saída,
um silêncio que não era pausa,
era demissão afetiva.

Não houve cena.
Nada caiu no chão.
Nenhum drama digno de memória.
Só o detalhe:
você começou a existir em outro lugar
antes de sair daqui.

Aprendi cedo que insistir
é uma forma educada de mendigar,
e que a dignidade, quando percebe o clima,
pega o casaco sozinha.

Então fiz o que os lúcidos fazem:
fechei a frase antes do ponto final,
guardei o nome onde não dói,
e transformei ausência em resposta,
e disse para mim mesmo:

Ao menor sinal de desinteresse, retribua. Suma!