Resenha: Poetry de Ring Lardner

Poetry, de Ring Lardner, é um livro que não pede reverência. Ele pede atenção. E atenção de verdade, não aquela pose meio besta de quem finge profundidade porque está lendo poesia. Lardner entra em cena para chutar essa solenidade falsa no saco, com precisão cirúrgica e uma ironia que dói porque acerta. Ele não escreve poesia para elevar o leitor a um altar estético cheio de fumaça e pose. Ele escreve para expor o quanto esse altar é, muitas vezes, uma farsa elegante. O alvo não é a poesia em si, mas o teatrinho cultural em torno dela. O livro é um dedo médio levantado contra o hábito preguiçoso de achar que verso sério é verso bom. E isso é lindo pra caralho. Ring Lardner vem do jornalismo, do humor e da observação do cotidiano. Isso aparece em cada linha. Os poemas parecem simples demais, quase desleixados, como se alguém tivesse escrito aquilo sem “capricho”. E é exatamente aí que mora o golpe. A simplicidade é intencional. As rimas meio idiotas, a métrica torta, o vocabulário coloquial não são falhas. São armadilhas. Lardner imita o mau poema, exagera o gesto vazio, e deixa o leitor se dar conta de quantas vezes aplaudiu porcaria só porque vinha embrulhada em tom solene. O que Poetry faz é desmontar o poeta afetado, o leitor pretensamente profundo, aquele sujeito insuportável que lê um verso ruim e suspira como se tivesse acabado de tocar o absoluto. Lardner esfrega na cara desse tipo o ridículo da situação. E faz isso sem discurso teórico, sem manifesto chato, só com humor seco e uma inteligência afiada pra cacete. Há algo de deliciosamente desconfortável no livro. Ele se recusa a ser bonito do jeito esperado. Ele não quer te embalar. Quer te acordar. O riso que surge não é gargalhada fácil, é aquele riso meio nervoso de quem percebe: “puta merda, eu já caí nessa”. Já fingi entender. Já admirei por convenção. Já aceitei o tom sério como sinônimo de valor. Lardner transforma esse hábito num espelho pouco gentil. E o mais importante: o livro não é cínico. Ele não odeia a poesia. Ele odeia a mentira em torno dela. Odeia a empulhação, a vaidade travestida de sensibilidade, o verniz intelectual usado pra esconder a falta de coisa alguma a dizer. Poetry é um ataque frontal à poesia de fachada, àquela que existe mais pra impressionar do que pra comunicar. E isso, ironicamente, é um gesto de profundo respeito pela arte. O livro também carrega o espírito de seu tempo, mas sem virar peça de museu. Há ali a América do início do século XX, negociando sua identidade cultural, cansada de imitar modelos europeus e cheia de gente querendo parecer profunda a qualquer custo. Lardner escolhe o humor como arma. Em vez de escrever um tratado chato pra caralho, ele escreve poemas que parecem bobos e funcionam como bombas pequenas e precisas. O que sustenta Poetry é o olhar. Lardner observa pessoas, não abstrações. Observa como falam, como escrevem, como querem parecer interessantes. Seus poemas soam como monólogos involuntários, gente se entregando sem perceber. E isso é uma aula de literatura que muito curso acadêmico metido a sério não consegue dar. Por fim, não é exatamente um livro de poesia. É um livro sobre o vício cultural de tratar poesia como coisa sagrada demais pra ser questionada. Lardner chega e diz, em essência: se essa porra não aguenta uma piada, talvez não seja tão profunda assim. Basicamente isso. É um livro leve na forma e brutal no efeito. Não transforma o leitor em poeta. Transforma o leitor em alguém menos trouxa diante de poses culturais vazias. E se isso não é uma função nobre da literatura, então foda-se o resto.