A Expectativa Alheia


    Há dias em que o ar parece carregar uma tensão invisível, como se o mundo inteiro esperasse algo de nós e o simples ato de respirar exigisse desempenho. Foi assim hoje. Tenho percebido mais o peso da expectativa alheia, esse olhar que não se vê, mas se sente pousado sobre os ombros, moldando gestos, escolhendo palavras, ajustando silêncios. É curioso como o outro pode habitar nossos movimentos sem estar presente. Enquanto caminhava para a universidade, notei como as pessoas se moviam em eixos de julgamento mútuo: cada rosto atento ao que o outro faz, cada passo medido pela possibilidade de ser observado. Ninguém está realmente só, mesmo quando está, porque há sempre o espelho invisível dos olhos alheios. A vida social é, em grande parte, uma peça encenada sem ensaio, mas com plateia constante. O mais paradoxal é que todos fingem não notar que estão sendo vistos, como se a naturalidade fosse a mais exigente das máscaras.

    Pensei em como crescemos sob a pedagogia do olhar. Desde cedo, somos ensinados a não decepcionar a professora, o pai, o grupo, o amor, a imagem. E quando enfim estamos sós, ainda levamos conosco o coro interno dessas vozes. O rosto se torna um campo de batalha entre o que se é e o que se deve parecer. A expectativa do outro passa a viver dentro de nós como uma respiração estranha, quase uma segunda alma que não pedimos, mas abrigamos. Durante a tarde, sentado no pátio, observei meus colegas. Um ria alto demais, tentando disfarçar a dúvida que o corroía. Outro falava com autoridade sobre algo que mal compreendia e era visível o medo de ser desmascarado. Em cada um, o mesmo enredo: o esforço para parecer inteiro, mesmo quando se está em ruínas. Talvez a sociedade inteira seja isso, uma coreografia de medos bem ensaiados.

    E no entanto, há beleza nessa contradição. Porque mesmo ao ceder à expectativa alheia, o ser humano revela sua necessidade mais profunda: a de ser reconhecido. O desejo de corresponder é também uma forma de amor, um pedido mudo de pertencimento. Talvez o erro não esteja em desejar agradar, mas em esquecer-se no processo. Ao cair da noite, percebi o quanto essa data de hoje se gravaria em mim por esse simples aprendizado: que não há liberdade sem algum grau de desapontamento. Para ser livre, é preciso aceitar que, em algum ponto, alguém ficará insatisfeito e que isso não é tragédia, é condição.

    A expectativa alheia é uma moldura. Pode aprisionar, mas também pode revelar o contorno daquilo que somos. No fundo, viver é aprender a negociar com esse olhar coletivo, sem deixar que ele nos apague. Aprender a andar pelo mundo como quem sabe: há sempre olhos observando, mas há também o direito sagrado de continuar sendo, mesmo sob o peso da plateia e talvez, quem sabe, a verdadeira elegância da alma esteja justamente aí: em seguir autêntico, mesmo quando o mundo inteiro espera outra coisa.