Resenha: Hamlet de William Shakespeare

Resenha: Hamlet de William Shakespeare

Hamlet não é uma tragédia sobre vingança.
Essa leitura, embora comum, permanece na superfície.
A peça de Shakespeare é antes o retrato de uma consciência em estado de vigília permanente, incapaz de repousar em um mundo que exige decisões rápidas, lealdades simples e narrativas bem fechadas.
Hamlet não sofre porque não age.
Ele sofre porque vê demais.
O castelo de Elsinore é menos um espaço político do que um espaço mental.
Algo está rotten in the state of Denmark porque a ordem simbólica foi corrompida.
As palavras perderam estabilidade, os vínculos tornaram-se utilitários e a autoridade já não se ancora na legitimidade, mas na eficiência.
A aparição do Ghost não inaugura a ação, mas a dúvida.
Ele não oferece direção, apenas impõe consciência.
Hamlet, príncipe e filho, não reage como um herói trágico tradicional.
Ele pensa.
E pensar, nesta peça, é um ato profundamente subversivo.
Cada gesto possível lhe parece contaminado, cada decisão carrega um custo ético que não pode ser ignorado.
Sua hesitação não é covardia, mas escrúpulo.
Hamlet compreende que agir é sempre escolher uma versão do mundo, e nenhuma versão lhe parece suficientemente limpa.
O célebre questionamento existencial não se reduz a uma oposição entre vida e morte.
Trata-se de uma reflexão sobre o peso de estar consciente.
Viver implica suportar a injustiça, a corrupção, a passagem do tempo e o ruído incessante da própria mente.
Morrer surge como hipótese de silêncio, não como desejo romântico.
Hamlet não busca o fim, mas o cessar do excesso.
Claudius funciona como o contraponto estrutural de Hamlet.
Onde Hamlet reflete, Claudius age.
Onde Hamlet se detém, Claudius avança.
Ele representa a política pragmática, a eficácia sem remorso, o poder que se legitima pelo resultado.
Sua culpa não o paralisa, apenas o ajusta.
Claudius é o retrato de um mundo que continua a funcionar mesmo quando moralmente comprometido.
Gertrude encarna outra estratégia de sobrevivência.
Sua pressa em se casar novamente não é apenas desejo, mas recusa do luto.
Ela escolhe a adaptação, o esquecimento funcional, a continuidade a qualquer custo.
Hamlet, incapaz de esquecer, torna-se o estranho dentro da própria casa.
Onde Gertrude se acomoda, Hamlet se rasga.
Polonius representa a racionalidade instrumental levada ao paroxismo.
Ele acredita que pode administrar afetos, vigiar consciências e reduzir o humano a esquemas de controle.
Sua obsessão por ordem e aparência não produz segurança, apenas asfixia.
É sob esse peso que Ophelia se desfaz.
Ophelia é a figura mais silenciosamente trágica da peça e talvez a mais negligenciada.
Ela não enlouquece por amor, como tantas leituras simplificadoras insistem, mas por expropriação de si.
Filha obediente, peça política, corpo vigiado, Ophelia não possui espaço legítimo para existir como sujeito.
Seus sentimentos por Hamlet nunca lhe pertencem plenamente.
São monitorados, suspeitados, instrumentalizados.
Enquanto Hamlet sofre por excesso de pensamento, Ophelia sofre pela impossibilidade de pensar em voz própria.
Sua loucura não é um excesso, mas uma implosão.
Quando a linguagem lhe é retirada, quando o pai morre, quando Hamlet a repele, quando o mundo se torna ilegível, resta-lhe apenas o canto fragmentado.
Suas canções não são delírios aleatórios, mas restos de sentido, fragmentos de uma subjetividade que não encontrou abrigo.

É aqui que deveríamos nos deter com mais atenção.
Deveríamos nos atentar a essa “sina de Ophelia”.
Sua trajetória revela o custo humano de estruturas que silenciam a sensibilidade.
Ophelia diz a verdade apenas quando já não é exigida coerência.
Sua morte na água não é apenas um desfecho trágico, mas um retorno simbólico ao elemento onde não há comando, nem vigilância, nem exigência de forma.
Ela desaparece porque não havia lugar possível para ela permanecer.
Se Hamlet encarna a consciência dilacerada pela ética, Ophelia encarna a sensibilidade esmagada pela ordem social.
Ele sofre por lucidez.
Ela sucumbe por silêncio.
Ambos são vítimas de um mundo incapaz de sustentar profundidade.
Laertes surge como o homem da reação.
Ele age onde Hamlet reflete.
Sua dor rapidamente se converte em movimento.
Shakespeare não o idealiza nem o condena.
Ele o utiliza como contraste para mostrar que a rapidez também produz violência, assim como a demora produz sofrimento.
Nenhuma dessas vias é redentora.
O teatro dentro do teatro revela a aposta de Hamlet na arte como instrumento de verdade.
Quando a palavra política falha, resta a cena.
Ainda assim, mesmo após a culpa de Claudius tornar-se visível, o alívio não vem.
Saber não basta.
A verdade, quando se impõe, pesa.
No desfecho, a ação finalmente acontece, mas tarde demais.
A morte se espalha não como catarse, mas como esgotamento.
Hamlet age quando já não há tempo para pensar.
Ophelia, ausente, permanece como a perda irreparável, a vida que não chegou a se realizar.
Hamlet permanece atual porque descreve uma condição profundamente moderna.
A consciência que vê demais em um mundo que exige simplificação, e a sensibilidade que não encontra lugar em estruturas rígidas.
Shakespeare não oferece consolo.
Ele oferece reconhecimento.
O aprendizado é claro: há certos mundos que sobreviver exige calar.
E que pensar e sentir profundamente pode custar tudo.