Misticismo e Lógica e Outros Ensaios (Mysticism and Logic and Other Essays) é um livro intrigante, a leitura dele foi como se entrasse no pensamento humano como quem entra numa marcenaria onde ferramentas diferentes foram misturadas na mesma caixa e, por causa disso, muita gente está tentando cortar madeira com um telescópio e observar estrelas com um martelo; o gesto dele, ao longo dos ensaios, é separar instrumentos, devolver cada coisa ao seu uso próprio e, ao mesmo tempo, lembrar que a vida não cabe inteira em ferramenta nenhuma, porque há experiências que pedem precisão e há experiências que pedem grandeza, e o erro começa quando a gente tenta obter grandeza fingindo precisão ou tenta obter precisão fingindo que a grandeza não existe. No ensaio que dá título ao livro, ele faz uma operação delicada: não ridiculariza o místico como se ele fosse um tolo que “não entende ciência”, nem idolatra o cientista como se ele fosse um sacerdote do real; ele identifica duas atitudes fundamentais diante do mundo, a atitude mística e a atitude científica, e mostra que ambas nascem de algo verdadeiro no ser humano, mas se deformam quando viram soberanas e exclusivas. A atitude mística, para Russell, tem a virtude de perceber o mundo como um todo, sentir a unidade por trás da dispersão e experimentar uma espécie de humildade diante do infinito, mas costuma cair num vício: ela quer transformar uma intuição total em conhecimento detalhado, e então confunde sentimento de certeza com certeza, confunde o êxtase com a prova; é como alguém que, tendo visto uma paisagem inteira do alto, desce a montanha e passa a descrever cada árvore como se tivesse medido cada folha, e nisso começa a inventar. A atitude científica, ao contrário, aceita limites, trabalha por aproximações, testa, corrige, recua, avança, e por isso é capaz de construir um conhecimento acumulativo; mas pode cair no vício simétrico: desprezar aquilo que não se deixa medir facilmente e, por irritação com o vago, amputar do humano justamente o que o torna humano, como se a vida inteira fosse um problema de contabilidade. Russell organiza esse ensaio com uma espécie de mapa interno que volta em vários outros textos: razão e intuição, unidade e pluralidade, tempo, bem e mal; ele mostra como o misticismo tende a desejar uma unidade que apaga diferenças e uma eternidade que torna o tempo um engano, enquanto a ciência precisa da pluralidade, da diferença e do tempo como dimensão real para que haja investigação; e é intrigante como ele não diz apenas “a ciência está certa”, ele diz algo mais incômodo: a ciência é o nosso melhor método para crenças verdadeiras, mas o impulso que nos leva a buscar o todo, a beleza e a impessoalidade também tem valor, desde que não se apresente como um atalho cognitivo. Há momentos em que ele usa exemplos históricos como quem traz testemunhas para o palco: a tentação de transformar o mundo num fluxo único, a tentação de chamar o que é difícil de explicar de ilusão, a tentação de achar que, porque uma experiência é intensa, ela deve ser literalmente descritiva do universo; e ao fazer isso ele parece dizer: o perigo do misticismo não é sentir demais, é afirmar demais; e o perigo da ciência não é duvidar demais, é esquecer por que duvida. Esse fio reaparece quando ele fala do lugar da ciência numa educação liberal: Russell não está defendendo “mais tecnologia” nem “mais informação”, ele está defendendo um tipo de mente, uma disciplina de honestidade intelectual, a capacidade de suportar a dúvida sem desabar, de preferir a verdade provisória à mentira confortável, e de reconhecer propaganda mesmo quando ela vem vestida de moralidade; ele vê a educação como um campo de batalha silencioso em que instituições querem formar lealdades, não inteligências, e ele insiste que uma educação digna desse nome não pode ser só treinamento para o trabalho nem catecismo para a obediência, tem que ser treino de visão, como ensinar alguém a distinguir neblina de montanha. Aí vem A Free Man’s Worship, que funciona como o coração emocional do livro sem virar sentimentalismo: Russell encara a indiferença cósmica com uma frieza que parece cruel à primeira vista, mas o que ele está fazendo é retirar muletas; ele descreve um universo em que o homem é produto de causas cegas, em que o destino do sistema solar não consulta nossos valores, e em que não há garantias metafísicas de que o bem vença, e justamente por isso ele propõe uma espécie de “adoração” sem submissão, uma fidelidade aos ideais humanos sem precisar fingir que o universo os endossa; é como a história de alguém que constrói uma casa numa região de terremotos sabendo que ela pode cair, e ainda assim a constrói com cuidado, não porque acredita que o solo vai se sensibilizar com sua esperança, mas porque a dignidade está no ato de construir e no tipo de vida que se torna possível enquanto a casa está de pé. Russell transforma a ética numa questão de autoria: não recebemos valores prontos do céu, nós os forjamos contra a corrente, e a liberdade humana aparece como capacidade de escolher o que venerar mesmo quando o mundo não dá aplauso. Em seguida, quando ele fala do estudo da matemática e de matemática e os metafísicos, o livro muda de luz e você percebe que Russell não é apenas o crítico do nebuloso, ele é também o amante do abstrato; ele descreve a matemática como um domínio onde a mente toca uma pureza rara, uma espécie de beleza impessoal, e ao mesmo tempo desmonta os exageros metafísicos que tentam tirar da matemática uma prova de que o mundo “tem que ser” assim ou assado; ele mostra como números, infinitos e formas podem embriagar a filosofia, fazendo-a acreditar que, porque a estrutura é perfeita, o real deve obedecê-la sem resto, e a crítica dele é um antídoto contra essa intoxicação: a matemática é um jardim de formas rigorosas, mas não é automaticamente o terreno inteiro do universo, e quem confunde jardim com terreno acaba discutindo flores quando o problema era o clima. No ensaio sobre método científico em filosofia, Russell tenta salvar a filosofia de duas caricaturas: a filosofia como retórica de grandes palavras e a filosofia como serva tímida das ciências; ele quer uma filosofia que aprenda com a ciência uma atitude de hipótese e verificação, sem perder sua tarefa própria, que é clarificar conceitos, examinar pressupostos e construir uma visão coerente do que as ciências sugerem quando tomadas em conjunto; ele está, de certo modo, ensinando o filósofo a não ser um turista que tira foto do laboratório nem um profeta que decreta verdades sem olhar para o mundo, mas alguém que trabalha na fronteira, onde palavras precisam ser afiadas para que a experiência possa ser pensada sem confusão. Quando ele entra nos ensaios mais “físicos”, sobre os constituintes últimos da matéria e sobre a relação entre sense-data e a física, a ousadia fica mais técnica e mais existencial ao mesmo tempo, porque Russell está lidando com a pergunta: o que é o mundo que a física descreve e como ele se conecta com aquilo que de fato aparece para nós, as cores, sons, durezas, espaços vistos e tocados; ele explora a ideia de que a física não é um espelho direto do que sentimos, mas uma construção inferida, um sistema de relações que explica e organiza nossas aparências, e isso muda a imagem de realidade: o mundo cotidiano é a fachada que a mente habita, a física é a planta estrutural que não se confunde com a fachada, e o filósofo tem a função de explicar como ambas pertencem à mesma casa sem virar superstição nem virar cinismo. O ensaio sobre a noção de causa é um golpe elegante numa palavra que todo mundo usa como se fosse óbvia; Russell mostra como “causa” muitas vezes é um modo preguiçoso de falar quando não sabemos a lei, e como na física madura o que aparece não é um “empurrão” metafísico, mas relações funcionais, equações, regularidades que dispensam a ideia intuitiva de causa como uma força que sai de um evento e entra no outro; é como se ele dissesse: você não precisa imaginar um espírito invisível carregando o efeito no colo, você precisa entender a estrutura que liga estados do mundo. E então, em conhecimento por acquaintance e por descrição, ele fecha o livro com uma distinção que, quando você pega de verdade, muda seu modo de pensar sem fazer barulho: há coisas que conhecemos diretamente, por contato imediato, e há coisas que só conhecemos por descrição, por meio de palavras, relatos, inferências; confundir essas duas formas de conhecimento gera tanto dogmatismo quanto ceticismo, porque a gente passa a exigir contato direto com o que só pode ser descrito, ou passa a tratar o que é contato direto como se fosse mera opinião; Russell usa isso para limpar a linguagem e mostrar por que pensamos que “sabemos” coisas que na verdade só repetimos, e por que às vezes duvidamos de coisas que estão, por assim dizer, na nossa mão. A sensação final do livro, se você realmente acompanha Russell, é que ele está formando em você um tipo de caráter mental: a coragem de viver sem mitologias confortáveis e sem reducionismos confortáveis, a coragem de admitir a vastidão sem inventar garantias, e de exigir clareza sem ressecar a alma; ao longo das páginas, ele parece repetir com variações a mesma lição: quando você não sabe, diga que não sabe; quando você sabe, saiba exatamente o que sabe e como sabe; quando sentir o todo, não transforme isso em licença para afirmar detalhes; quando medir detalhes, não transforme isso em licença para negar o todo. E aí a resenha completa vira quase uma consequência: este não é um livro de “opiniões” reunidas, é um treino de lucidez, uma coleção de ensaios que vai da metafísica à educação, da ética à matemática, da filosofia da ciência à teoria do conhecimento, sempre com a mesma intenção subterrânea: impedir que o pensamento humano se traia. Você termina com menos névoa. Não porque Russell tenha fechado o mundo numa fórmula, mas porque ele abriu espaço dentro de você para suportar o mundo sem precisar falsificá-lo.