Espiritualidade pra mim é quando o mundo parece ter duas camadas ao mesmo tempo. A camada de fora, que dá pra tocar, tipo a mesa, o chão frio, o barulho do das ruas. E a camada de dentro, que não dá pra pegar com a mão, mas dá pra sentir, tipo quando você entra num lugar e parece que o ar tá “pesado” ou “leve” mesmo sem ter nada diferente.
Eu acho que todo mundo tem um tipo de antena por dentro, só que muita gente deixa ela desligada porque dá trabalho sentir. Você já reparou como tem dia que você olha pro céu e é só céu, e tem dia que você olha pro céu e parece que ele tá olhando de volta? Não é que apareça um rosto nas nuvens. É outra coisa. É como se o silêncio ficasse mais alto.
A. Tipo quando você tá triste e alguém te abraça sem você pedir, e por um segundo você pensa: “Como essa pessoa sabia?” Às vezes eu acho que existe um fio invisível ligando as coisas, e ele passa por dentro das pessoas também.
A gente chama de “coincidência” quando algo combina demais com o que a gente tava pensando. Mas às vezes parece mais como se o mundo tivesse uma linguagem secreta que fala baixinho. Ele não grita. Ele insinua.
Só que aí vem um problema que eu fico pensando e é aqui que eu abro o nó: se existe essa parte invisível, como eu sei que não sou eu inventando tudo? Eu não sei sempre. De verdade. Tem horas que eu acho que é minha cabeça querendo achar sentido em tudo, igual quando a gente vê formato nas nuvens.
Mas tem outras horas que não parece invenção, parece encontro. Parece que alguma coisa dentro de mim encosta em alguma coisa do lado de fora e faz “clic”.
Pra mim, espiritualidade tem mais a ver com atenção do que com saber. É quando eu fico quieto o suficiente pra perceber que eu tô vivo de um jeito que não cabe em palavras. Tipo sentir o coração batendo e lembrar que eu não mando nele e mesmo assim ele trabalha por mim.
Tipo ouvir uma música e, sem eu entender por quê, ela abrir uma porta dentro de mim que eu nem sabia que existia. E também tem a parte das emoções, porque eu acho que emoção é um tipo de mensagem do invisível em forma de sensação.
Raiva, às vezes, é medo disfarçado. Saudade é amor procurando lugar. Vergonha é a gente querendo se esconder até de si mesmo. Se eu presto atenção, eu começo a entender o que eu preciso, não só o que eu quero. É como se a espiritualidade fosse uma lanterna apontada pra dentro.
No fim, eu acho que espiritualidade é lembrar que eu não sou só um corpo indo de um lugar pro outro. Eu sou alguém que sente, imagina, sonha, muda. E quando eu trato essa parte como uma coisa real, eu fico mais cuidadoso com o que eu penso, com o que eu faço, com o jeito que eu falo com as pessoas, porque parece que tudo deixa rastro, mesmo quando ninguém vê.
Eu leio bastante sobre espiritualidade porque é assunto que eu tento desviar mas não consigo então talvez eu diria assim: espiritualidade é quando você percebe que existe mais mundo dentro de você do que você mostra por fora e as vezes, existe mais mundo fora de você do que meus olhos conseguem explicar.