hoje o quarto ficou dourado de um jeito diferente e eu parei com a meia na mao sem saber por que. a luz entrou pela janela e fez um caminho no ar e dentro desse caminho apareceu uma poeira que nao era sujeira feia. parecia uma chuva pequena dançando devagar como se o tempo tivesse diminuido so pra ela. fiquei olhando e esqueci a pressa e a chaleira começou a cantar la na cozinha e parecia que a casa respirava comigo no mesmo ritmo. eu soprei bem de leve e vi a poeira mudar de lugar e pensei que talvez as ideias sejam assim tambem. elas ficam paradas ate alguem passar vento nelas ou ate a luz chegar no angulo certo. sentei no chao porque do chao da pra ver melhor o feixe. encostei as costas na cama e a madeira estava morna. isso me puxou uma lembranca estranha de um dia no rio que eu nao lembro inteiro. lembro so de um claro por dentro como se alguem tivesse acendido um fosforo atras dos olhos e depois tudo tivesse ficado mais calmo. nao penso nisso como historia de heroi. e so uma lembranca que me empurra a prestar atencao no pequeno. a poeira e pequena e mesmo assim fica enorme quando a luz escolhe ela. eu queria ser escolhido assim quando eu estudo quando eu canto quando eu fico com raiva e depois me arrependo. na escola hoje eu levei isso comigo e quase nao falei. eu gosto de ouvir primeiro porque as coisas se entregam melhor quando nao estao sendo apressadas. a professora falou sobre corpos transparentes e opacos e eu fiquei pensando que a poeira deve ser um pedacinho de passado que sobrou no ar. ela parece antiga e feliz ao mesmo tempo. quando a gente anda ela muda de orbita como se eu fosse um planeta pequeno puxando tudo pro meu redor sem perceber. no recreio eu fiquei perto do muro que tem sombra e depois sol e fiz de conta que eu era um relogio quebrado. o tempo tinha caido no chao e as formigas estavam carregando os minutos pra algum lugar secreto onde elas consertam coisas. teve aula de portugues minha preferida. acho que o maior motivo de eu escrever aqui e por causa da professora mesmo. quando voltei pra casa anotei no caderno as 5 que eu preciso treinar o olhar antes do pensamento. se eu olho devagar as coisas contam melhor o que elas sao. o feixe mostrou que a poeira nao estava dormindo. ela so precisava de palco e o palco era uma linha de luz. talvez as pessoas tambem. penso nos colegas que falam alto porque nao querem sumir. penso em mim quando fico quieto pra ver se escuto a verdade primeiro. cada um tem um jeito de acender. agora a noite ja chegou e mesmo sem o feixe eu sei que a poeira continua aqui viajando num ar invisivel que passa pelos moveis e por dentro de mim. amanha de novo. quando eu acordar quero procurar outra vez a poeira no sol e ver se ela me ensina a ser luz por dentro mesmo quando ninguem esta olhando.