Mitologia Grega
Eu tava lendo sobre os deuses gregos e fiquei com a sensação de que lá em cima, no céu deles, ninguém consegue ficar quieto e falar a verdade inteira, parece até na minha casa quando os adultos falam “não aconteceu nada”, mas eu sinto no ar que aconteceu sim, só que no mundo deles tudo é gigante, barulhento e com raio.
Zeus é tipo o chefe que todo mundo respeita, mas também todo mundo morre de medo, porque o humor dele muda rápido, igual quando a luz aqui de casa dá aquela piscadinha antes de cair a energia e a TV de tubo faz um “tchiiiii”. Um minuto ele tá lá, sentado mandando em todo mundo, no outro ele fica com raiva e joga um trovão como se fosse uma bronca que virou fogo e bateu no chão. O mais estranho é que ele vive fazendo coisa escondida e depois finge que tá tudo normal, como se a nuvem em volta dele não mudasse de cor. Eu sei que cor muda, porque às vezes eu percebo isso nas pessoas, tipo um negócio meio turvo no ar, meio amarelo-cinza, pesado, quando elas escondem uma parte. Aí eu penso: se até o “rei” faz isso, como é que o resto não vai fazer também? Fica um céu inteiro com aquela cor de mentira, só que ninguém fala, porque é Zeus, e parece que o medo faz todo mundo virar estátua por dentro.
Atena já é diferente, ela não parece força bruta que grita e bate na mesa, ela parece uma coisa bem limpa, tipo uma lâmina brilhando, sem sujeira nenhuma, cabeça funcionando, olho que não pisca, estratégia. Eu imagino ela como uma professora que sabe a resposta antes de você terminar de perguntar, só que sem cara de deboche, só com aquele olhar que dá um frio na barriga porque você sente que ela vê tudo. Ela não precisa levantar a voz porque ela vence por dentro, e isso dá um arrepio bom e ruim, porque dá vontade de confiar, mas também dá vontade de não ficar no caminho dela, porque parece que ela te empurra sem nem tocar, só com o pensamento.
E aí vêm os monstros, que são como as coisas que a gente tenta não olhar quando apaga a luz e a casa fica com barulho de geladeira e vento na janela. Medusa, por exemplo, não é só “uma mulher com cobra no cabelo”, é o tipo de medo que te paralisa só de encarar, igual quando você vê uma sombra no corredor e seu corpo vira pedra antes do seu cérebro decidir se é o casaco pendurado ou se é alguma coisa de verdade. Quando eu fico com essas ideias na cabeça, eu às vezes faço do meu jeito pra não deixar o medo crescer demais, tipo acender uma velinha baixinha (bem escondido, porque minha mãe não gosta de bagunça), colocar um pouquinho de sal num pires pra “limpar” o ar, soprar devagar como se eu estivesse falando com o vento, e imaginar uma luz em volta de mim, como um casaco de brilho que não dá pra ver com olho, mas dá pra sentir. Não é porque eu acho que sou poderosa, é porque às vezes ajuda a minha cabeça não virar um quarto escuro cheio de passos.
Minotauro é outra coisa que eu entendo fácil: um monstro preso num labirinto. Porque tem dia que a cabeça da gente também vira um labirinto, e você anda, anda, e volta pro mesmo lugar, e parece que tem uma coisa bruta respirando lá no fundo, esperando você cansar. É como quando eu tento dormir e a mente fica repetindo uma coisa chata, e eu penso “para, para”, mas não para, e eu sinto como se tivesse uma porta lá dentro que eu não sei abrir. Aí eu fico imaginando o Minotauro andando lá, chifrudo, preso em corredor que não acaba, e dá uma pena meio esquisita, porque ele é monstro, mas também é prisioneiro.
Mas o que mais me incomoda mesmo são os heróis. Porque herói, na minha cabeça, devia ser alguém que resolve e pronto, tipo quando o Super-Homem chega e acabou, só que os heróis gregos são teimosos, e às vezes parecem criança grande, só que com espada. Hércules é forte demais e sofre por causa disso, como se a própria força fosse um problema que ele não sabe onde guardar, como se ele fosse um menino que não sabe a medida do próprio braço e derruba tudo sem querer e depois fica arrependido. Perseu vai atrás da Medusa e todo mundo fala “uau”, mas eu fico pensando no medo que ele deve ter engolido pra conseguir dar um passo de cada vez sem olhar direto, como quando eu passo pelo corredor escuro tentando não olhar pro canto onde eu acho que tem sombra. E Odisseu… o Odisseu é aquele que não para nunca, que vai e volta e erra e inventa e escapa, como se a vida dele fosse um videogame difícil (daqueles que a gente aluga e tem que devolver depois) e não tem botão de pausa, e se você piscar, pronto, perdeu uma vida.
Aí o loop que fica aberto na minha cabeça é esse: se até os deuses mentem, se até os heróis erram, então o mundo não é um lugar onde os bons ganham só porque são bons. É um lugar onde as pessoas, e os deuses também, fazem escolhas e pagam o preço, mesmo quando ninguém tá olhando. E aí, do nada, isso deixa a história mais verdadeira, porque eu olho pros adultos e vejo o ar mudando quando eles escondem coisa, e eu olho pros deuses gregos e sinto a mesma bagunça, só que com sandálias, nuvens e trovão. Tenho estudo bastante sobre mitologias, até pra iniciação e escolha da minha panteologia, eu acho que a mitologia grega é tipo um espelho antigo, daqueles que não te deixam sair bonito de propósito. Você encosta o rosto e ele te mostra bravo, ciumento, esperto, com medo, com vontade de ser maior do que é. Dá vontade de fechar o livro e ir brincar pra esquecer, mas dá mais vontade ainda de virar a página, porque tem uma parte de mim que sabe: é assim mesmo que as histórias começam a contar a verdade, fingindo que é fantasia, e eu sinto isso como quando eu olho pra lua e parece que ela tá me olhando de volta, quietinha, como se dissesse “eu vi”, mesmo sem falar nada.