Resenha: Tipos Psicológicos de Carl Gustav Jung
Hoje de novo meu pai ficou indo e voltando para ver se estava conectado na internet, sempre olhando pelo telefone. Por isso escrevi no bloco de notas. Terminei Tipos Psicológicos. Demorei mais do que imaginei porque não é um livro que dá para ler correndo. Ele fica olhando de volta para a gente. Fiquei pensando muito numa pergunta que aparece o tempo todo, mesmo quando o livro não fala com essas palavras. Por que pessoas boas e inteligentes brigam tanto e têm certezas tão diferentes. Eu já vi isso em casa, na escola, até comigo mesmo quando penso uma coisa de manhã e outra à noite.
O livro me deu uma resposta que não briga com ninguém. Ele diz que as pessoas não discordam só porque querem, ou porque são más, ou porque não estudaram o suficiente. Elas discordam porque veem o mundo por dentro de lugares diferentes. Algumas vivem mais para fora, outras mais para dentro. Algumas confiam no que sentem, outras no que pensam, outras no que veem com os olhos, outras no que ainda não existe mas parece que vai existir. Não é erro. É jeito.
Gostei quando entendi que não existe tipo certo. Fiquei aliviado. Às vezes eu acho que tem algo errado comigo por ficar tanto tempo pensando antes de falar, ou por ficar cansado quando tem muita gente falando ao mesmo tempo. O livro diz que isso não é defeito, só é orientação. É como se cada pessoa tivesse uma bússola diferente e ficasse perdida quando tenta seguir o mapa do outro.
Achei estranho e verdadeiro quando ele fala da função que fica escondida. Aquela parte nossa que a gente não entende direito e que sai meio torta. Fiquei pensando qual é a minha. Talvez seja por isso que às vezes eu fico confuso com coisas simples e muito calmo com coisas que parecem grandes. É como se dentro de mim tivesse uma sala apagada.
O que mais gostei é que o livro não tenta colocar ninguém em caixinhas fechadas. Ele parece mais um convite para prestar atenção. Prestar atenção em si e nos outros. Entender que crescer não é virar um tipo melhor, mas ficar mais inteiro. Integrar o que falta. Isso me deu uma sensação boa, como se fosse permitido não saber tudo agora.
Quando terminei, fechei o arquivo e fiquei olhando a tela vazia. Pensei que talvez entender as pessoas não seja concordar com elas, mas saber de onde elas estão olhando. Acho que isso ajuda a não odiar. E ajuda a não se perder de si mesmo.
Agora vou salvar o texto antes que a internet caia.