A coragem dos covardes

A coragem dos covardes o intervalo derramado e. o chao era aspero pintado de verde gasto e o sol fazia os meninos correrem de um lado pro outro. eu gostava de encostar no corrimao frio sentindo o metal meio umido do sereno que ainda nao tinha ido embora. dali eu via o patio inteiro como se fosse um mapa. as rodas de conversa as corridas as meninas trocando figurinhas o professor de educacao fisica apitando la do outro lado. os grupos pareciam umas ilhas se aproximando e se afastando sempre mudando de forma. nenhum lugar ficava vazio por muito tempo so o canto perto da caixa de areia onde o vento parecia guardar segredo. foi ali que eu vi o l. tres meninos cercaram ele. nao batiam empurravam de leve como quem testa a borda de um copo pra ver se quebra. riam alto aquele riso cheio de dente e ar. chamavam ele de chiclete grudado imitavam a voz puxavam o cabelo. o l nao chorava. segurava a lancheira bem forte e olhava pro chao como se tivesse procurando uma formiga especifica e nao quisesse perder de vista. eu fiquei parado com o coracao acelerado como se tivesse engolido um sapo inteiro. ficou uma pergunta presa na minha boca. quando e que a graca vira muro. e se eu falar para. sera que eu viro o proximo alvo. eu fiquei com medo desse lugar estreito entre coragem e fama de metido. e tipo ficar na beira de uma piscina fria sabendo que se pular muda tudo e ao mesmo tempo da aquela vontade de sair correndo. mais tarde na sala de informatica o ar tinha cheiro de poeira e daquele pano com alcool que a professora passa nas mesas. as luzes dos monitores piscavam devagar como se estivessem respirando. abri o blog com a mao suando. a tela azul do computador refletia meu rosto meio confuso. eu escrevi tem gente que morde sem dente. apaguei. escrevi de novo o riso as vezes e ponte as vezes e cerca. fiquei olhando para as palavras tentando entender o que elas tavam querendo dizer de verdade. lembrei do meu pai contando que quando era crianca usava um tenis que raspava no chao e os colegas zoavam ele. ele sempre fala disso olhando longe como se medisse a distancia entre o que foi e o que e e ficasse agradecendo sem falar nada. a tarde teve futsal. o sol batia nas janelas e deixava a quadra meio dourada cheia de po flutuando no ar. o l foi pro gol. eu tava do outro lado ajeitando o colete. os mesmos tres meninos do recreio estavam la tambem rindo e chutando a bola antes da hora. um deles gritou olha o cdf no gol. o outro mandou cuidado pra nao quebrar o dente do dentusco. riram alto. o l baixou a cabeca. eu senti um negocio quente subindo no peito uma mistura de vergonha e raiva. quando eu vi as palavras ja tinham saído sozinhas da minha boca. voces nao cansam nao. eles viraram na hora. um falou com aquele sorriso torto ah entao voce vai ficar defendendo ele agora. o outro completou e bom porque agora nao e so mais um agora sao dois. a bola parou de rolar. o ginasio ficou estranho silencioso. dava pra ouvir so o eco de outra turma la longe no patio. eu olhei pra eles com muito odio no olho e respondi sem pensar serao tres. serao quatro. serao cinco. serao seis. serao quantos voce quiser. fiquei um segundo quieto e continuei. voce so anda em turma ne. por que mexe com ele. qual e o teu problema. qual e o problema de voces com ele. porque ele e inteligente. porque tira nota boa. um deles revidou deu um passo pra frente o rosto ficou vermelho. fez mensao de me empurrar. o l comecou a tremer com o olho cheio dagua. o professor de educacao fisica tava do outro lado arrumando os coletes e eu senti que tinha entrado num lugar sem saida. quando o outro veio vindo na minha direcao com o punho fechado eu dei um passo pra tras e gritei professor. ele virou na hora com o apito na boca o som cortando o ar. os meninos se afastaram fingindo que nada era serio. eu fiquei com o coracao martelando o corpo inteiro quente. o l ainda tremia e eu percebi que tinha comprado a briga sozinho tipo quando a gente assina um papel sem nem ler o que ta escrito. o resto da aula passou devagar a bola parecia pesada demais. quando o jogo acabou o l olhou pra mim e falou baixinho obrigado. eu so balancei a cabeca. nao era coragem o que eu tava sentindo era outra coisa. um misto de medo raiva e vontade do mundo ter alguma justica nem que fosse do tamanho de um biscoito dividido. na saida o ceu tava ficando rosado. eu e o l ate o portao. ninguem falou nada. dava pra ouvir so o barulho dos passos o portao abrindo e o transito la longe. a noite no msn o status de todo mundo era piada. o meu ficou ausente. fiquei ouvindo o zum zum da rua pensando que talvez a gente ria pra nao cair e as vezes escolhe alguem pra servir de chao. no outro dia na hora do lanche eu sentei do lado do l sem nem planejar muito. pareceu pouco e mesmo assim pareceu um degrau. um gesto tao simples que nem parece gesto so um espaco pequeno onde o ar fica mais leve. talvez seja isso. a gente vai desapertando o muro em gesto minimo ate ele virar de novo um corrimao. e ai o mundo parece caber um pouquinho mais dentro da gente