A Cor da Mentira
Hoje eu resolvi escrever aqui porque meu caderno já tá ficando cheio demais de novo. Tem hora que eu sinto que ele pesa. Não de papel. Pesa por dentro. A professora de português falou que eu escrevo como se eu estivesse conversando com alguém que mora longe. Ela disse que isso podia virar um lugar na internet. Um blog. Eu achei estranho no começo. Porque internet parece um lugar frio. Mas aí eu pensei que talvez seja melhor do que guardar tudo só no meu quarto.Eu espero minha mãe terminar de falar no telefone. Eu espero meu pai não estar perto do computador. Aí eu conecto. Parece um bicho engasgando. Eu fico olhando a telinha e esperando. Como se o mundo fosse abrir uma portinha devagar. Eu descobri uma coisa meio chata também. Ser inteligente dá uma solidão esquisita. Parece quando eu tento sintonizar o rádio do meu pai e não acha a música. Fica só um chiado fininho. Parece que entra pelo ouvido e bate lá no fundo da cabeça. Na escola acontece parecido. Quando a professora fala “tá tudo bem” com aquele sorriso duro eu já sei que não tá. Eu não sou adivinho. É só que a cor em volta dos adultos muda. Quando eles mentem o ar perto deles fica turvo. Tipo a TV de tubo quando não pega canal direito. Não é uma cor bonita. Parece água de aquário quando esqueceram de trocar. Fica meio cinza. Meio amarela. Com um peso. A voz deles continua normal. A boca faz as palavras certinhas. Mas a cor entrega. Eu fico olhando e pensando como eles conseguem fingir assim. E como eles acham que criança não percebe nada. Eles falam como se eu fosse só um corpo pequeno. Só que eu vejo o invisível deles.
O pior é quando eu falo. Ninguém gosta. Eles riem como se eu tivesse contado uma piada sem graça. Eles mudam de assunto rápido. Eles fazem a cara de “imaginação”. Aí eu aprendi a guardar. Eu finjo que acredito. Igual eles fingem que tão falando a verdade. Isso dá uma vontade de ir pra um lugar mais quieto. Tipo embaixo da mesa. Tipo o meu quarto com o Discman tocando baixinho. Eu deito e fico olhando o teto. E penso que eu devia ser mais simples. Só que eu não sei desligar. Por isso eu prefiro conversar com o gato. Ele não precisa inventar nada. O gato só é. A cor em volta dele é limpa. Parece vidro lavado. Parece quando a janela fica transparente depois da chuva. Ele deita. Ele fecha o olho devagar. Eu sinto que ali não tem sujeira escondida. Eu conto as coisas pra ele. Ele não fala “depois a gente vê”. Ele não fala “não foi bem assim”. Ele só ronrona. E isso parece mais verdade do que muita frase de adulto. Eu não sei se eu queria ver essas cores. Às vezes eu queria não ver. Porque quando eu vejo eu fico mais sozinho. Mas também é como se eu tivesse uma lanterna que ninguém mais tem. E eu não posso fingir que tá escuro.
PS: eu não sei explicar direito como eu vejo essas cores.